Caminhos da Mente

O caminho não se faz sozinho

CASOS

Este é o lugar onde iremos desbravar os caminhos percorridos pelas crianças, durante o seu desenvolvimento ao longo do ciclo vital, onde esperamos dar a entender um bocadinho da mente que tantas vezes nos mente!


Caso David

O David tem 6 anos e entrou recentemente para a escola primária, situada na sua área de residência.

Passou os primeiros anos de vida com a avó, seu principal cuidador, uma vez que ambos os pais trabalham. O pai ausenta-se frequentemente para o estrangeiro, por motivos profissionais.

A crise do "subprime" afetou muito a família do David. Nessa altura tiveram muita dificuldade em pagar o empréstimo da casa, o que levou a que o pai aceitasse trabalhar longos períodos longe da família.

O David não frequentou o ensino pré-escolar. É descrito pela mãe como uma criança tímida e introvertida, que demorou muito tempo a aprender a falar (a mãe utiliza os primos como termo de comparação, tanto nesta como noutras situações semelhantes).

O David e a sua família vivem numa zona residencial de carácter urbano, não conhecem os vizinhos.

Os pais do David, há dois meses atrás, tiveram um segundo filho. David começou a ter dificuldade em adormecer e recomeçou a urinar à noite na cama. A mãe do David acha que este é um comportamento hereditário, uma vez que o pai e o tio "também tiveram esse problema".

Atualmente, quando a mãe o deixa na escola, recusa-se a ficar no local, chora e faz birra.

Que fatores normativos e não normativos poderão estar a influenciar o comportamento do David e, consequentemente, o seu desenvolvimento?

O comportamento atual do David é espelho de eventos normativos e não normativos que decorreram ao longo de todo o seu desenvolvimento até ao momento e que por sua vez o afetaram, quer positiva como negativamente.

Os Eventos normativos  são situações que ocorrem à grande maioria das pessoas, sendo expectáveis de acontecer ao longo do ciclo vital dito normal. O David neste momento está a experienciar alguns eventos normativos, tais como o facto de viver numa zona residencial urbana; a entrada na escola primária com a idade respetiva para tal, ainda que esta seja na sua área de residência trata-se de uma transição para este que poderá originar sentimentos ambíguos por parte do mesmo; além disso teve também recentemente um irmão, tornando-se assim o irmão mais velho, deixando de ser filho único onde a atenção estaria mais focalizada em si, podendo originar estes comportamentos de regressão de controlo dos esfíncteres à noite.

Já os eventos não normativos tendem a causar mais stress que os normativos dado que estes surgem de modo inesperado e/ou não usuais no decorrer da vida da maioria das pessoas. O David experienciou desde a principal cuidadora deste ser a avó e não um dos progenitores como seria expectável, na maior parte das vezes, uma ausência mais acentuada por parte do pai que está atualmente a trabalhar no estrangeiro devido à atual crise do "subprime" que veio a afetar a sua família; além do mais o facto de não ter frequentado o ensino pré-escolar (falta de socialização) e também a comparação que a sua mãe realiza com os seus primos são fatores que influenciaram os seus comportamentos atuais, desenvolvendo atitudes não expectáveis como por exemplo a timidez e introversão, pela falta de comunicação e interação com outras crianças o que levou a um desenvolvimento mais tardio da linguagem, dificuldade em adormecer, alterações no comportamento como enurese, chorar e fazer birras quando é deixado na escola. 

Caracterização dos contextos de vida do David, segundo a perspetiva de Broffenbrenner

Segundo Broffenbenner, o modelo ecológico do desenvolvimento humano consiste na análise da influência dos inúmeros contextos em que determinada pessoa está inserida tanto de forma isolada como num conjunto de sistemas, refletindo sobre o impacto que estes contextos têm uns nos outros (Gouveia, 2008).

Para o autor, é essencial que ocorra interligações entre os diversos contextos da vida da pessoa, para que estes possam atingir a sua potência máxima de influência no desenvolvimento humano (Gouveia, 2008).

O ambiente está colocado em destaque na teoria de Broffenbenner, sendo compreendido como tudo aquilo que está extrínseco à pessoa (família, amigos, trabalho, etc.), assumindo um papel fundamental do seu desenvolvimento. É tudo aquilo que rodeia a pessoa e que, intencionalmente, exerce uma influência significativa sobre os seus pensamentos, comportamentos e emoções (Gouveia, 2008).

No entanto, para além do ambiente, Broffenbenner também realça a importância dos fatores intrínsecos à pessoa (personalidade e temperamento), nomeadamente os seus fatores genéticos/biológicos, afirmando ainda que a criança é capaz de modelar o seu próprio ambiente ainda que precocemente esta esteja condicionada à decisão dos seus cuidadores. Assim, a criança isoladamente é ativa no seu processo de desenvolvimento podendo ser influenciada pelo ambiente, mas também modificá-lo de certo modo (Gouveia, 2008).

Considerando a presente perspetiva e os contextos da vida do David podem ser caracterizados em diferentes sistemas, desde microssistemas a cronossistemas, tendo um impacto direto no seu desenvolvimento tal como iremos descrever em seguida. 


Figura 1 – Abordagem Ecológica de Urie Brofenbrenner. Adaptado de Fernandes, 2022.

Nomeadamente, o  microssistema  engloba os ambientes com os quais David estabelece relações mais próximas sendo fulcral que haja reciprocidade, equilíbrio de poder e afeto nestes; existem dois ambientes que se destacam, nomeadamente a casa/família, no qual interage maioritariamente com a sua avó, a sua principal cuidadora, pela ausência prolongada dos pais, integra ainda os pais e o irmão, sendo um elemento recente na família; além deste existe também a sua relação com a escola, não tendo frequentado o pré-escolar e tendo atualmente dificuldades a adaptar-se ao novo ambiente do infantário (Assis, Moreira & Fornasier, 2021; Alves, 1997).

No  mesossistema, ou seja, as interações dos microssistemas traduzindo as relações entre os mesmos tendo o David papéis específicos em cada um, estão presentes as relações entre família e a escola, não havendo uma ligação efetiva entre os mesmos, o que pode contribuir na enfatização da dificuldade à adaptação a este ambiente pelo David; e a família e os vizinhos, o que pode ser representativo de falta de redes de apoio da família e ainda dificultar o processo de socialização do David, o que poderia contribuir positivamente para o desenvolvimento da fala da criança caso essa relação fosse afetiva (Assis, Moreira & Fornasier, 2021; Alves, 1997).

O  exossistema, definido como os ambientes que apesar de o David não estar inserido ou não participar ativamente neles têm influência indireta no próprio, são por exemplo o trabalho do pai, levando a que este não esteja tão presente na vida de David, causada pela necessidade de morar no estrangeiro, devido à crise financeira advinda do "subprime", o que consequentemente resulta numa vinculação pai-filho menos efetiva do que a qual seria necessário para o correto desenvolvimento e tem um impacto direto na dinâmica familiar; o trabalho da mãe também leva a uma maior ausência da mesma e necessidade que a sua principal cuidadora seja avó, ainda que este absentismo seja em muito menor proporção do que o do seu pai; também podemos considerar a influência do exossistema pais, tios e primos, fazendo comparações recorrentes do desenvolvimento do David com o dos primos ("Demorou muito tempo a aprender a falar" quando comparado com os primos") ficando evidente que a mãe considera que o filho tenha algum atraso ao nível do desenvolvimento, e compara ainda com o pai e tio, normalizando o facto de ter dificuldade em adormecer e voltar a urinar na cama dado que aconteceu o mesmo com o tio anteriormente (Assis, Moreira & Fornasier, 2021).

Relativamente ao macrossistema, engloba os valores sob os quais um determinado indivíduo vive, sendo neste caso a crise do "subprime" que veio a afetar economicamente toda uma sociedade, abalando por sua vez em particular a vinculação e a segurança da sua família (Assis, Moreira & Fornasier, 2021).

E por fim o  cronossistema, abrange as situações e experiências que afetaram o seu desenvolvimento ao longo da sua vida, como a ausência prolongada do pai, com a consequente necessidade da avó ser sua cuidadora, o que levou a não frequentar o pré-escolar afetando a sua socialização, dificultando a adaptação ao infantário; além disso o nascimento do irmão também foi um fator temporal significativo no seu desenvolvimento.

Em suma, ao refletirmos acerca dos diferentes ambientes em que o David se insere assim como as relações entre os mesmos foi possível denotar a relevância e influência que estes têm, não só no seu quotidiano como também no seu desenvolvimento, favorecendo ou desfavorecendo o mesmo, pelo que destacamos sobretudo as mudanças familiares e económicas, mais especificamente fatores como a ausência do pai, alterações na dinâmica familiar e adaptação ao novo ambiente (infantário) como aqueles que tiveram um maior impacto.

Referências Bibliográficas: 

Alves, P. B. (1997). A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Resenha, Psicol. Reflex. Crit., v. 10, n. 2. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-79721997000200013 

Assis, D. C. M., Moreira, L. V. C., & Fornasier, R. C. (2021). Teoria Bioecológica de Bronfenbrenner: a influência dos processos proximais no desenvolvimento social das crianças. Research, Society and Development, v. 10, n. 10. Disponível em: https://dx.doi.org/10.33448/rsd-v10i10.19263  

Gouveia, T. L. C. (2008). Vivências Escolares e Envolvimento Parental: Implicações nas Atitudes Face á Escola e no Sucesso Académico de Alunos do Ensino Secundário. [Dissertação de Mestrado, Universidade do Porto]. Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/23734/2/29734.pdf  



Caso Ana Luísa

Ana Luísa tem 19 anos e foi mãe pela primeira vez há dois meses. É casada há 3 anos, com um homem dez anos mais velho. O seu marido, encarou a gravidez com apreensão e o nascimento do bebé como um fardo, uma vez que se encontra desempregado. O casal discute frequentemente desde o nascimento do filho.

Ana Luísa vive longe da sua mãe e tem uma má relação com a sogra, tendo pouco apoio familiar nesta fase tão importante da sua vida.

Sente-se sempre muito cansada, não consegue dormir o suficiente, o seu bebé tem um temperamento "colérico", tendo crises de choro, aparentemente sem motivo, tanto de noite como de dia. Sente-se também muito culpada porque não consegue amamentar o filho.

Ana Luísa sente-se incapaz de tomar conta do bebé. Chora frequentemente, e irrita-se com quem a rodeia. Sente que não tem paciência para o bebé, considera-se uma péssima mãe. O bebé Diogo é considerado um bebé "difícil", que chora de forma intensa. É difícil de acalmar. Ultimamente, a mãe deixa-o a chorar até ele cansar-se. 

Qual o impacto que o comportamento da mãe poderá ter no desenvolvimento do bebé?

O comportamento da mãe poderá ter diversas implicações no desenvolvimento do bebé Diogo, desde logo, no desenvolvimento psicológico pois o processo de vinculação encontra-se comprometido o que irá provocar possíveis alterações ou, até mesmo, atrasos no seu processo de desenvolvimento cognitivo e não só, uma vez que, o Diogo encontra-se na fase de desenvolver competências de adaptação ao ambiente.

A vinculação é um processo de extrema importância, sabe-se que a "(…) consistência e a constância dos cuidados parentais à criança, a adequação da interação pais-criança e a vinculação segura da criança aos pais são fatores cruciais para o desenvolvimento psíquico e social da criança, com repercussões ao longo de todo o seu ciclo de vida." (DGS, 2005, p.4).

Existem diferentes tipos de vinculação- vinculação segura, vinculação insegura-evitante, vinculação insegura-ambivalente, vinculação insegura-desorganizada- onde, por sua vez, irão estar associados diferentes tipos de comportamentos do bebé/criança face ao dador de cuidados e comportamentos do dador de cuidados. (DGS, 2005)

Neste caso, tendo em conta as características de cada tipo de vinculação e os dados fornecidos, poder-se-á dizer que há a possibilidade de se desenvolver uma vinculação insegura-ambivalente que se caracteriza por (DGS, 2005):

Tabela 1- Vinculação e respetivas características. Adaptado de: DGS, 2005.

Sabendo que o Diogo se encontra na primeira infância, um período crítico ou sensível que se prolonga desde o nascimento aos três anos, constata-se que:

  • Ao nível do desenvolvimento físico todos os sentidos funcionam em graus variados, sendo que se encontram em desenvolvimento contínuo, uma vez que, o "(…) cérebro aumenta a complexidade e é altamente sensível à influência ambiental." (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006, p.52). Neste sentido, constata-se desde logo que o desenvolvimento do Diogo está condicionado, pois tendo em conta o seu ambiente, este não está a proporcionar-lhe as experiências sensório-motoras e afetivas necessárias para alavancar o seu desenvolvimento. Relembrando Albert Bandura, que nos diz que as pessoas adquirem novas capacidades mediante a aprendizagem por observação ou imitação, sendo "(…) a imitação de modelos o elemento mais importante na forma como as crianças aprendem uma língua, lidam com a agressividade, desenvolvem um senso moral e aprendem comportamentos apropriados (…)" (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006, p.74), sendo que esta aprendizagem está presente mesmo que não seja reproduzida pela própria criança. (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006). Neste sentido, constata-se "(…) que o ambiente molda a pessoa (…)", e, portanto, ainda que o Diogo não imite os comportamentos observados, se estes persistirem, mais à frente poderá reproduzi-los ou não, embora, haja uma influência dos mesmos no desenvolvimento do bebé como se irá verificar mais à frente.
  • Ao nível do desenvolvimento cognitivo sabe-se que as "(…) capacidades de aprender e lembrar estão presentes, mesmo nas primeiras semanas." (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006, p.52) Sabe- se que o bebé "(…) consegue discriminar as discrepâncias (…)" presentes na interação com a mãe e acaba por aceitar o que esta oferece tendo em conta que deseja qualquer oportunidade que promova interação com a mesma. (Piccinini & Schwengber, 2003, p. 406)
  • Ao nível do desenvolvimento psicossocial, ocorre o desenvolvimento do "(…) apego a pais e a outras pessoas." (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006, p.52), sendo este um ponto crucial no desenvolvimento e que se encontra fortemente impactado visto que o bebé não contacta com mais ninguém para além da mãe e do pai, encontrando-se o estabelecimento deste vínculo comprometido. Recordando Erik Erikson, o Diogo encontra-se na crise Confiança versus Desconfiança, tendo em conta a situação retratada o bebé poderá não adquirir a virtude esperada- a esperança-, resultante da incapacidade de estabelecer um sentido de confiança nos pais e no ambiente, que é desenvolvida no 1º ano de vida e "(…) forma base para todas as tarefas psicossociais futuras." (Ordem dos Enfermeiros, 2010, p.111), tal está a diretamente relacionado com o vínculo e o sentimento que o Diogo irá desencadear perante a ausência da mãe. (Ordem dos Enfermeiros, 2010) (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006)

Segundo Piaget, as crianças são seres ativos em crescimento que possuem os seus próprios impulsos internos e padrões de desenvolvimento, onde o desenvolvimento cognitivo se "(...) inicia com uma capacidade inata de se adaptar ao ambiente." (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006, p.76).

Deste modo, apresentamos em seguida os Estádios Cognitivos de Piaget, para que seja mais fácil  compreender o impacto que toda esta situação poderá ter no Diogo, onde nos iremos focar especialmente no estádio sensório-motor.

           Figura 2- Estádios do Desenvolvimento segundo Piaget.

No Estádio Sensório-motor é pretendido que a criança desenvolva a capacidade de (Ordem dos Enfermeiros, 2010, p.111):

  • Resolução de problemas através de «tentativa e erro»;
  • Exploração incessante;
  • Atividade reflexa através de comportamentos repetitivos simples até ao comportamento imitativo;
  • Afetividade e inteligência são indissociáveis;
  • Crescente senso da imagem corporal.

Ora, precisaríamos de mais dados para fazer uma avaliação precisa do Diogo, no entanto, sendo a adaptação o processo pelo qual a "(…) criança lida com novas informações (…)" (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006, p.76) que entram em conflito com o que ela já sabe, envolvendo este processo duas etapas a assimilação que consiste em "(…) receber e informações e incorporá-las às estruturas cognitivas existentes (…)"(E. Papalia, Olds & Feldman, 2006, p.76), e a acomodação que requer a mudança das "(…) estruturas cognitivas para incluir um novo conhecimento." (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006, p.76).

Verifica-se que o Diogo ao chorar incessantemente encontra-se num processo de assimilação porque sabe por experiências anteriores que a mãe iria em seu auxílio, contudo há já vestígios de um processo de acomodação, no qual o bebé chorar incessantemente até se cansar e consolar sozinho pois entende que a mãe não virá em seu auxílio, o que a longo prazo poderá fazer com que o bebé não chore em caso de necessidade. Este será um mecanismo esperado, pois segundo Piaget quando "(…) as crianças não conseguem lidar com as novas experiências dentro das suas estruturas existentes, organizam novos padrões mentais que integram a nova experiência, assim restaurando o equilíbrio." (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006, p.76).

Segundo Piccinini & Schwengber, 2003 "(…) a depressão torna-se familiar ao bebé na forma de muitos microeventos repetidos, ou seja: quando as mães ficam deprimidas não ocorre uma mudança brutal, mas um processo progressivo de desligamento, o qual é geralmente parcial." (Piccinini & Schwengber, 2003, p. 406)

Contudo, estes bebés também podem apresentar comportamentos desorganizados e menor reação o que acaba por provocar mais sentimentos negativos na mãe. (Fernandes, 2023)

Tendo em conta que, a psicopatologia do bebé está relacionada com a psicopatologia da relação, o desenvolvimento afetivo e cognitivo do bebé poderá ser influenciado negativamente pelo estado depressivo da mãe, assim torna-se urgente a intervenção para ajudar esta família. (Fernandes, 2023)

O que poderá passar-se com a mãe Ana Luísa?

Considerando o comportamento da Mãe Ana Luísa, verificamos que esta poderá estar perante uma Depressão Pós-Parto. Sabendo que, a depressão pós-parto encontra-se frequentemente relacionada com o nascimento de um bebé e "(...) refere-se a um conjunto de sintomas que iniciam geralmente entre a quarta e a oitava semana após o parto, atingindo de 10 a 15% das mulheres." (Piccinini & Schwengber, 2003, p.404).

O nascimento de um bebé e o facto de ser o primeiro, é "(…) considerado por diversos autores como um evento propício ao surgimento de problemas emocionais nos pais, como depressões, psicoses pós-parto e manifestações psicossomáticas." (Piccinini & Schwengber, 2003, p.404)

É caracterizada por sintomas como a "(…) irritabilidade, choro frequente, sentimentos de desamparo e desesperança, falta de energia e motivação, desinteresse sexual, transtornos alimentares e do sono, a sensação de ser incapaz de lidar com novas situações, bem como queixas psicossomáticas." (Piccinini & Schwengber, 2003, p.404)

Tendo em conta os sinais e sintomas evidenciados e o que foi descrito no texto, é possível identificar alguns dos sintomas, tais como: cansaço, dificuldade em dormir, temperamento colérico, incapacidade de amamentar o Recém-Nascido, "(…) abandona o RN deixando-o a chorar por diversas horas", caracteriza o seu bebé como difícil.

Para além disto, verifica-se que a vinda do bebé não foi bem percecionada por parte do seu marido, o que provoca alguns sentimentos negativos à Ana Luísa agravando-se, uma vez que, esta está isolada socialmente.

Este isolamento social da Ana Luísa não é benéfico para a situação atual, visto que, não pode contar com uma boa rede de suporte que lhe ajude a satisfazer as suas necessidades humanas básicas como o descanso e a alimentação, por exemplo.

Para além disto, é importante ter-se em conta os fatores biológicos, obstétricos, sociais e psicológicos, uma vez que, estes irão determinar a probabilidade e propensão para uma possível depressão. (Piccinini & Schwengber, 2003)

Perante este caso, verificamos que a Ana Luísa, para além do que foi referido anteriormente tem uma grande discrepância de idade relativamente ao marido e teve uma gravidez na idade da Adolescência o que, por si só, acarreta muitos desafios quer à vivência desta fase desafiante do desenvolvimento quer à capacidade para lidar com os eventos normativos e não normativos que decorrem ao longo da vida, podendo surgir conflitos que ficam por resolver característicos desta altura e que irão ter repercussões mais à frente.

Sabendo que a "(…) adolescência é um período de transição que se situa entre os 10 anos e os 19/20 anos, em que as características intelectuais, emocionais e sociais da criança se transformam, de forma interrelacionada, em características intelectuais, emocionais e sociais do adulto. Esta expansão física e psicológica desenvolve-se ao longo de três fases."(Fernandes, 2024, p.6).

Assim, é durante este processo que a adolescente desenvolve a capacidade de "(…) analisar a realidade forma mais ampla e complexa, com a emergência do pensamento formal." (Fernandes, 2024, p.7), que será fundamental para a consolidação da construção da identidade do Eu. (Fernandes, 2024)

A Ana Luísa possui 19 anos, pelo que se encontra na fase da adolescência final, onde a "(…) identidade do adolescente encontra-se mais solidificada. O adolescente mostra interesses mais estáveis, maior preocupação com os outros e, consequentemente, uma maior estabilidade emocional." (Fernandes, 2024, p.9).

Pelo contrário, verificamos que a nossa jovem apresenta uma fraca estabilidade emocional e os seus interesses não são revelados, contudo, constata-se que tal deve-se a toda a sua situação atual. (Fernandes, 2024)

Por outro lado, denota-se a existência de um raciocínio moral a um nível convencional, onde as principais ideias são a lealdade e o cuidado- relação com o companheiro e com o bebé, apesar de agora estarem afetadas pela depressão pós-parto. (Fernandes, 2024)

Com tudo isto, segundo a Teoria de Erik Erikson, a Ana Luísa poderá não resolver o conflito característico da idade da Adolescência Identidade VS Confusão de Identidade do qual poderá estar comprometida a emergência da virtude da fidelidade. (E. Papalia, Olds & Feldman, 2006)

Neste caso, perante a difusão da identidade surgiu a expressão da difusão da intimidade, pois a Ana tomou o compromisso e envolveu-se numa relação íntima, apesar de não ser aferível o receio da perda da identidade, conseguimos perceber que houve uma escolha inadequada do parceiro o que resultou no seu isolamento. (Fernandes, 2022)

Neste sentido, considerando o período de moratorium psicossocial, a Ana Luísa não pôde usufruir do mesmo, o que fez com que não tenha havido um período de experimentação social saudável, que lhe permitisse descobrir qual o tipo de pessoa que se deseja tornar. (Fernandes, 2022)

Por outro lado, apoiando-nos em Marcia (1980), não podemos dizer que a jovem se encontra em Foreclosure visto que as suas escolhas não foram efetuadas pelos pais ou por outras pessoas significativas, mas sim por si mesma. (Fernandes, 2022) Neste sentido, precisaríamos de mais dados para decidir qual o estadio do desenvolvimento em que a Ana Luísa se encontra.

Relativamente à construção da identidade, "Piaget considera que a personalidade resulta da submissão do Eu a um ideal, causa, etc… e implica a cooperação e a autonomia da pessoa, por oposição à heteronomia." (Fernandes, 2022, p.12), o que permite a elaboração de um plano de vida- fonte de disciplina e cooperação- algo que a Ana Luísa não se permitiu fazer, uma vez que, a construção do plano de vida só é possível mediante uma reflexão livre e após a emergência do pensamento hipotético-dedutivo ou formal algo que parece ter sido condicionado no seu desenvolvimento pela construção de uma relação afetiva com alguém de idade superior, bem como pelo abandono escolar e da respetiva família. (Fernandes, 2022)

O facto de não ter sido uma gravidez planeada, faz com que a vivência da mesma seja mais stressante, pois por si só, já é uma altura desafiante, visto que, a maternidade implica a adaptação e aquisição de novos papéis e consequentemente mudanças impactantes na identidade da mulher. (Piccinini & Schwengber, 2003)

Para além disto, a gravidez na adolescência tem um grande impacto na vida da mulher pois é um evento não normativo, que leva a elevadas "(…) taxas de abandono escolar, baixos níveis de instrução, empregos menos qualificados e menores índices de satisfação profissional nas mães adolescentes, associados, habitualmente, a um contexto de vida de maior pobreza e precariedade que se auto-perpétua." (Fernandes, 2022, p.14).

Mas não só, a perturbação emocional e os índices de stress presentes nestas mães surgem frequentemente "(…) associados, entre outras variáveis, a falta de apoio, críticas intensas e rejeição dos próprios progenitores; falta de apoio por parte do pai do bebé; e situações de violência emocional e física na relação amorosa." (Fernandes, 2022, p.15), verificando-se todas estas variáveis no caso da Ana Luísa.

Neste caso, a relação com o pai da criança não está a facilitar a adaptação da Ana Luísa à maternidade adolescente, o que acarreta mais stress e um fator de risco para uma maior instabilidade. (Fernandes, 2022)

Para além das consequências da Ana Luísa, a gravidez na adolescência tem consequências para o pai da criança e para o bebé. Ao nível do bebé, pode ter como consequências "(…) dificuldades no seu percurso escolar, problemas de adaptação e risco de atraso desenvolvimental."(Fernandes, 2022, p.17), sabe-se que o "(…) percurso escolar dos filho de mães adolescentes é, com maior frequência, marcado por pior desempenho, mais insucesso e maior risco de abandono precoce do sistema de ensino, mais uma vez quando comparado com o percurso de filhos de mães mais velhas." (Fernandes, 2022, p.17), têm também uma maior probabilidade de se envolverem em comportamentos de risco.

De acordo com a Teoria de Brofenbrenner, onde o desenvolvimento é visto "(…) como o fenómeno de continuidade e mudança, nas características biopsicossociais dos seres humanos, tanto individualmente como em grupo.

Este fenómeno estende-se ao longo do curso de vida, através de sucessivas gerações, e épocas, tanto passadas como futuras." (Fernandes, 2022, p.16). Tendo em conta Brofenbrenner, realizamos uma abordagem específica ao da Ana Luísa.

No Microssistema, a Ana Luísa beneficia apenas da interação com o marido e o bebé Diogo, e por vezes da sua Sogra com a qual não estabelece uma boa relação sendo um fator de stress. Já no Mesossistema, estão contempladas as relações entre os diferentes microssistemas, ou seja, a relação com o trabalho do marido que neste caso é inexistente pois ficou desempregado, e a interação do marido com o filho que não é muito positiva, para além disto não há outras interações a abordar.

No Exossistema verifica-se que o facto de Ana Luísa não possuir qualquer tipo de ajuda, rede de suporte e interação com outras pessoas sem ser o marido, a sogra e o seu filho, está a afetar negativamente a sua saúde mental o que a leva a ter uma alteração do comportamento para com o Diogo. Relativamente ao Macrossistema não se tem a informação necessária, contudo, consiste na influência das crenças, ideologias e sistemas políticos. (Fernandes, 2022)

Por fim, o Cronossistema, no qual verifica-se que a gravidez constitui uma influência não normativa por ter sido vivenciada na adolescência. Tendo em conta "(…) que o desenvolvimento é fruto da interação entre as características do indivíduo, e as características dos diferentes contextos em que este se encontra inserido." (Fernandes, 2022, p.20), constata-se que existem alterações no processo de desenvolvimento da Ana Luísa que estão a contribuir negativamente para a vivência do seu pós-parto.

O que pode ser feito para ajudar esta família?

Neste caso consideramos que primeiramente seria fulcral realizar terapia comportamental cognitiva e psicoterapia interpessoal, de forma a resolver o conflito existente entre o casal e a família, o que possibilitaria que a Ana Luísa passasse a possuir uma rede de apoio mais alargada.

Numa fase inicial, enquanto Enfermeiras poderíamos, mediante o estabelecimento de uma relação de confiança com os pais comunicando de forma personalizada ou empática, ajudar os pais a verem a criança de uma forma positiva: mostrando os aspetos e qualidades positivas da criança; redefinir como positivos eventuais aspetos aparentemente negativos; reativar memórias anteriores relações positivas pais-bebé; propor um desafio aos pais: descobrirem qualidades positivas e competências da criança. É ainda importante confirmar "(…) as competências dos pais, apontando todos os aspetos positivos da interação." (DGS, 2005, p.24), e perante "(…) os problemas, sugerir, se necessário novas formas de comunicação e interação com criança (…)" (DGS, 2005, p.24), encorajando os pais a aderirem a um grupo de pais e partilharem as suas experiências. (DGS, 2005)

Posto isto, poderiam ser feitas outras intervenções, tais como (Fernandes, 2023):

  • Encaminhamento para outro Profissional de Saúde- Psicólogo;
  • Fornecer alternativas, como a intervenção Psicológica Online, no sentido de prestar um maior suporte à Ana Luísa, garantindo que a mesma não deixaria de beneficiar por falta de apoio ou disponibilidade financeira ou temporal;
  • Terapia farmacológica, última linha, caso nenhuma das intervenções produza resultados.

Referências Bibliográficas:

Direção-Geral da Saúde. (2005). Promoção da Saúde Mental na Gravidez e Primeira Infância- Manual de Orientação para Profissionais de Saúde. DGS. https://www.arsalgarve.min-saude.pt/wp-content/uploads/sites/2/2016/12/Saude_Mental_e_Gravidez_primeira_infancia_Folheto_DGS_2005.pdf 

Ordem dos Enfermeiros. (2010). Guias Orientadores de Boa Prática em Enfermagem de Saúde Infantil e Pediátrica- Volume I. Ordem dos Enfermeiros. Número 3. https://www.ordemenfermeiros.pt/media/8911/guiasorientadores_boapratica_saudeinfantil_pediatrica_volume1.pdf 

E. Papalia, D., Olds, S.W., Feldman, R.D. (2006). Desenvolvimento Humano. 8ª Edição. artmed®.

Fernandes, H. (2021). Psicologia no Ciclo Vital II [unidade curricular do curso de licenciatura em Enfermagem]. Desenvolvimento na Adolescência- Identidade. Setúbal, Portugal: Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal.

Fernandes, H. (2022). Psicologia no Ciclo Vital II [unidade curricular do curso de licenciatura em Enfermagem]. Gravidez na Adolescência. Setúbal, Portugal: Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal.

Fernandes, H. (2022). Psicologia no Ciclo Vital II [unidade curricular do curso de licenciatura em Enfermagem, Setúbal, Portugal: Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal.

Fernandes, H, (2023). Psicologia no Ciclo Vital II [unidade curricular do curso de licenciatura em Enfermagem]. Setúbal, Portugal: Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal.

Fernandes, H. (2024). Psicologia do Ciclo Vital II [unidade curricular do curso de licenciatura em Enfermagem]. Desenvolvimento na Adolescência. Setúbal, Portugal: Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal.

Piccinini, C. & Schwengber, D. (2003). O impacto da depressão pós-parto para a interação mãe-bebé. Estudos de Psicologia, 8(3), 403-411.  



Caso Mário

Mário um menino de 3 anos de idade, vai uma consulta de rotina com o enfermeiro pediátrico no centro de saúde. A mãe está preocupada porque ele parece estar atrasado em relação à fala em comparação com outras crianças da família, com a mesma idade. É uma criança carinhosa, inteligente e colaborante.

Fala poucas palavras, forma frases curtas, e muitas vezes prefere apontar para objetos em vez de verbalizar o que pretende.

Mário é o mais novo de três filhos muito desejados, pertencentes a uma família grande e unida. Ainda não frequenta o ensino pré-escolar, mas tem contacto frequente e de qualidade com as crianças da sua família. O Pai e a Mãe de Mário são presentes e dedicados à vida dos filhos.

Mário nasceu após uma gravidez sem complicações, mas sofreu algumas infeções no ouvido direito, recorrentes, durante o primeiro ano de vida. Foi tratado com antibióticos, e a mãe mencionou que ele tem dificuldade em ouvir sons baixos ou a longas distâncias. Não houve outros problemas significativos no desenvolvimento motor ou social.

Durante a consulta, a criança responde quando chamam o seu nome e consegue identificar objetos e cores quando solicitado, mas a sua capacidade de formar frases e conversar é limitada. Mostra sinais de frustração quando não consegue comunicar eficazmente.

Como pode o enfermeiro intervir, no caso apresentado? 

A aprendizagem da linguagem em crianças pequenas, especialmente entre 1 e 3 anos, é um processo fascinante e fundamental para o desenvolvimento cognitivo e social. Durante esta fase, os toddlers começam a explorar o mundo das palavras, expandindo gradualmente o seu vocabulário e aprimorando as suas habilidades de comunicação.

Desde o nascimento até aos 3 anos de idade as crianças desenvolvem a sua linguagem, transmitindo as suas emoções, necessidades e vontades inicialmente através de sons que, ao longo do tempo, evoluem para choros, arrulhos e balbucios. Depois, à medida que crescem, começam a formar palavras e frases simples, através da imitação dos comportamentos e palavras praticados pelas pessoas que o rodeiam, de início acidentalmente, mas depois de forma propositada. Por fim, espera-se que ao fim dos 3 anos de vida, a criança comece a comunicar (Fernandes, 2024).

A interação constante com os cuidadores e o ambiente ao seu redor desempenha um papel essencial, pois a linguagem é aprendida de forma interativa, através de conversas, leituras e experiências diárias. Este período é crucial para o estabelecimento de uma base sólida que sustentará as competências linguísticas futuras, impactando o desenvolvimento emocional, social e intelectual da criança. (Fernandes, 2024)

O caso do Mário é um exemplo que pode ocorrer com frequência em diversas famílias. A comparação com outras crianças, o medo da diferença e a preocupação do atraso no desenvolvimento físico e cognitivo, são alguns dos diversos motivos pelos quais os pais recorrem aos profissionais de saúde na procura de informações e esclarecimento de dúvidas.

Durante a consulta de enfermagem, @ Enfermeir@ deve desde o início demonstrar uma postura aberta, disponível, preocupada e empática com os membros da família; promover uma escuta ativa e não demonstrar nenhum julgamento às informações que lhes estão a ser ditas e, pelo contrário, mostrar interesse e compreensão. Isto vai permitir que a família e o Mário possam estabelecer uma relação terapêutica de confiança, segurança e à vontade com @ Enfermeir@ de modo a expressarem todas as suas dúvidas e preocupações.

Desta forma, depois de uma análise pormenorizada e atenta deste caso específico, @ Enfermeir@ informaria os pais de que todas as crianças são diferentes, e que apesar do Mário poder estar um pouco mais atrasado ao nível da linguagem do que era esperado, não é necessariamente uma situação grave, e que pode ser resolvido através da atuação de uma equipa multidisciplinar e do acompanhamento da família no processo de crescimento da criança. Isto pode descansar os pais e dar-lhes também algum positivismo e abertura para o resto da consulta.

Depois dos pais, @ Enfermeir@ devia tentar conversar um pouco com o Mário em tom de brincadeira, apresentar-se e tentar criar algum laço de abertura com ele, oferecendo-lhe um brinquedo ou papéis e lápis para desenhar, de forma que esteja entretido enquanto @ Enfermeir@ estiver a conversar com os pais, evitando o seu constrangimento e sentimento de estar "à parte" ao longo da consulta.

Posto isto, será importante @ Enfermeir@ ensinar aos pais as características de uma criança de 3 anos, mostrando o que é expectável, alguns sinais de alerta e algumas estratégias que podem usar para promover um desenvolvimento saudável da criança, bem como ultrapassar as dificuldades sentidas.


Ensinos a realizar aos pais:

A fase do Toddler (1 aos 3 anos) é caracterizada como uma fase de intensa exploração, birras e o negativismo – a fase dos "porquês". É nesta etapa que ocorre o desenvolvimento da imagem corporal e da identidade de género, e que desenvolvem a sua linguagem.

Durante as conversas longas é normal "gaguejar" e fazer perguntas sobre tudo, sendo possível manter uma conversa simples e fluída com ela já que é espectável que consiga comunicar de forma eficaz, perceptível e adequada (Fernandes, 2024).

De acordo com o Plano Nacional de Saúde Infantil de Juvenil (PNSIJ), aos 3 anos é espectável que a criança: consiga dizer o seu nome completo e sexo; tenha um vocabulário extenso, mas pouco compreensível por estranhos; presença de defeitos de articulação e imaturidade na linguagem onde demonstra algumas hesitações e repetições de sílabas e palavras no discurso (Direção Geral de Saúde, 2013).

Ou seja, nesta idade a criança é capaz de usar as palavras para expressar ideias e emoções, e começar a formar frases mais complexas, geralmente com 3 a 4 palavras, com a correta utilização de pronomes. Normalmente costumam de ter um vocabulário entre 300 e 1.000 palavras, sendo a sua pronúncia cada vez mais clara, apesar de serem normais os erros e distorções. É normal confundirem sons ou simplificarem certas palavras durante as conversas. (Fernandes, 2024)

Assim, um sinal de alerta aos 3 anos é a criança apresentar uma linguagem incompreensível. (Direção Geral de Saúde , 2013)

O PNSIJ estabeleceu alguns cuidados antecipatórios que devem ser ensinados aos pais para promover o desenvolvimento linguístico da criança, nomeadamente "Estimular a linguagem, compreensiva e expressiva, através de conversas, canções, livros, "anúncios", entre outros" (Direção Geral de Saúde, 2013, pg. 19).


Após a realização dos ensinos, @ Enfermeir@ deve realizar o exame físico da criança e avaliar o estado de desenvolvimento nos diversos níveis (linguísticos, cognitivos, físicos, etc.). Informaríamos os pais, através de linguagem simples, adequada e acessível como foi classificado o nível de desenvolvimento do Mário de forma a tranquilizá-los e esclarecer qualquer questão que possa surgir.

Outro tópico a abordar durante a consulta seria o envolvimento familiar. Iríamos elogiar o trabalho dos pais por terem criado uma família muito unida e presente, bem como terem educado o Mário para ser um rapaz tão carinhoso, inteligente e colaborante como afirmam ser. Devemos explicar que essa união é bastante importante para o seu crescimento e desenvolvimento em todas as áreas e que deve ser sempre mantida.

Explicaríamos aos pais que o Mário é uma criança e que o mundo ao seu redor é a sua maior influência e consequentemente a união familiar pode ser uma grande ajuda para a superação destas dificuldades sentidas por ele e pela família. Se ele se sentir apoiado nas suas falhas e conquistas vai sentir-se cada vez mais à vontade em tentar comunicar e não desistir apesar dos erros.

Quando o Mário tentar "evitar" verbalizar certas palavras, como afirma o caso, devemos estimular e incentivar que ele converse e diga as palavras/frases que queria dizer inicialmente. Neste sentido, ensinaríamos algumas estratégias que permitam que o Mário tenha espaço para conversar à vontade, sem ter medo de ser julgado e que, simultaneamente, o incentivem a comunicar mais e aperfeiçoar as suas capacidades de comunicação.

O ideal seria tentar ao máximo conversar com o Mário num local sem ruídos e distrações para que o foco esteja totalmente nele, dando-lhe o espaço necessário para que converse abertamente com os pais. Os pais devem ser pacientes e compreensivos com as falhas da criança e explicar que estas vão fazer sempre parte do seu desenvolvimento. Quando ocorrerem erros, é importante corrigi-los quando oportuno, mas não muito repetidamente pois isso pode causar outra barreira na comunicação pelo medo de falhar.

Assim, cada vez que o Mário superar uma dificuldade deve ser realizado reforço positivo (por mais pequena que seja a conquista) de modo a encorajá-lo a melhorar e treinar as suas competências comunicativas e sentir-se contente, satisfeito e motivado consigo mesmo. Tudo isto vai fazer com que os seus momentos de frustração comecem a desaparecer e que surja um Mário mais confiante e feliz consigo mesmo – um fator essencial para o seu desenvolvimento pessoal.

Com isto, é importante explicar aos pais que devem criar um equilíbrio entre as relações de cooperação da família e estimular a autoconfiança e autonomia da criança, através do uso de elogios e reforço positivo. Devem encarar o filho de forma positiva e fortalecer os laços familiares, dar tempo à criança para aprender e mostrar-lhe que é muito amado e apoiado e, pelo contrário, devem evitar comentários negativos, vagos e críticos.

Relativamente à dificuldade auditiva sentida pelo Mário, recomendamos que, quando se dirigirem para falar com ele, articulem bem as palavras num tom audível, com uso de palavras simples, frases curtas, tentando manter o contacto visual. Podem para além disto, realizar diversas atividades promotoras da audição e comunicação como ler livros, ver filmes e contar histórias.

Estas estratégias devem ser ensinadas aos restantes membros da família e futuramente às Educadoras quando o Mário entrar para o ensino pré-escolar, de forma que as pessoas estejam a par da situação e todos juntos consigam ajudá-lo.

Outra informação que também deveria ser fornecida é que, apesar de ser involuntária e natural a comparação feita entre os outros filhos e membros da família, estas devem ser evitadas perto do Mário pois podem provocar-lhe algum tipo de frustração e dificultar o processo de aprendizagem e superação.

Para além disso, explicaríamos novamente aos pais que cada criança tem o seu ritmo e que estas dificuldades sentidas por parte do Mário vão melhorar com o tempo e com a ajuda de toda a família. Uma vez que, o "(...) pensamento e a fala não seguem o sincronismo necessário, especialmente nas crianças muito vivas e imaginativas (...)" (Adrados, 1968, p. 88), estas têm sempre muita coisa para dizer e um raciocínio mais rápido do que aquele que conseguem transmitir, visto que, o "(...) vocabulário é ainda precário, e a possibilidade de combinar palavras e frases, incipiente (...)" (Adrados, 1968, p. 88), consequentemente há um bloqueio normal, tendo em conta que a linguagem é imatura e está em processo de organização e estruturação.

Posto isto, informaríamos os pais que é possível melhorar a capacidade comunicativa do Mário através da terapia da fala. Muitas crianças recorrem a estes profissionais e obtêm muitos bons resultados e, se mostrassem interesse disponibilizaríamos aos pais contactos ou serviços que fossem acessíveis aos mesmos.

Para além da terapia da fala, poderíamos abordar a eventual necessidade de uma consulta e/ou acompanhamento de otorrino devido às suas dificuldades auditivas e para a possível deteção de algum problema e seguinte resolução do mesmo.

Por fim, explicaríamos a importância de fazer o acompanhamento do Mário ao longo de outras consultas e, se os pais estivessem de acordo, agendaríamos a próxima consulta para acompanhar o seu desenvolvimento. Faríamos uma despedida agradecendo aos pais e ao Mário a sua presença e partilha.

Em conclusão, a aprendizagem da linguagem nas crianças pequenas, como demonstrado no caso do Mário, é um processo dinâmico e fundamental para o seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Cada criança segue o seu próprio ritmo, e, embora o Mário esteja a enfrentar algumas dificuldades no desenvolvimento da sua linguagem, é importante entender que esses desafios são comuns nesta fase e podem ser superados com o apoio adequado. A abordagem empática, a escuta ativa e o envolvimento da família desempenham um papel crucial para garantir que a criança se sinta segura e motivada a comunicar. A colaboração com uma equipa multidisciplinar, que pode incluir profissionais como fonoaudiólogos e otorrinolaringologistas, juntamente com estratégias de estimulação linguística em casa, contribuirão significativamente para o progresso do Mário. Ao proporcionar um ambiente de apoio, paciência e estímulo positivo, os pais podem não apenas ajudar o Mário a melhorar a sua comunicação, mas também fortalecer o seu desenvolvimento emocional e social, preparando-o para um futuro mais confiante e bem-sucedido. O acompanhamento contínuo ao longo das consultas de Enfermagem será essencial para monitorizar o seu progresso e garantir que qualquer desafio é abordado de forma eficaz.

Referências:

Fernandes, H. (2024). Psicologia do Ciclo Vital II [unidade curricular do curso de Enfermagem]. Setúbal, Portugal: Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal.

Adrados, I. (1968). A Criança Gaga. Estudos de Caso, 20 (4), 79-94. https://periodicos.fgv.br/abpt/article/view/16089 

Direção Geral da Saúde (2013). Saúde Infantil e Juvenil: Programa Nacional. Direção Geral da Saúde. 2ª edição. DGS. https://www.mgfamiliar.net/wp-content/uploads/PNSIJ-2.pdf 

Casos da Adolescência

Caso do João

O João tem 17 anos e é aluno da área cientifico tecnológica numa escola pública em Lisboa. Sabe que irá frequentar, na Universidade, o curso de engenharia mecânica. Sempre quis ser engenheiro, tal como o pai, o avô e os tios. Quer frequentar a mesma universidade que os seus familiares, é o que todos esperam que faça. Por enquanto, não sente qualquer dúvida em relação ao seu futuro profissional, sempre lhe disseram que esta era a melhor opção, espera-se que continue os negócios da sua família.

Resolução: 

De acordo com James Marcia, o João encontra-se no estágio de "Foreclosure". (Fernandes, 2024) Este estágio caracteriza-se pela adoção de uma identidade e compromissos ideológicos ou ocupacionais sem ter passado por uma exploração ou reflexão pessoal profunda sobre essas escolhas. (Fernandes, 2024)

No caso do João, ele está comprometido com uma posição ideológica e ocupacional que foi essencialmente moldada pelos seus familiares. Embora não tenha sido uma imposição direta, ele foi influenciado por uma forte pressão externa, tal como é descrito "sempre lhe disseram que esta era a melhor opção, espera-se que continue os negócios da sua família", o que revela uma expectativa familiar que acabou por moldar a sua decisão, sem que ele tenha explorado ou questionado outras possibilidades por si mesmo.

Caso da Maria

A Maria tem 20 anos e desistiu do curso universitário de enfermagem. Os seus pais ficaram muito aborrecidos com a desistência. A Maria explicou-lhes que não tinha a certeza de que queria exercer essa profissão, é uma decisão muito importante, precisa de refletir melhor.

Quer parar de estudar durante um ano para explorar outras opções, fazer um estágio talvez e pensar no que realmente gostaria de estudar.

Resolução: 

De acordo com James Marcia, a Maria encontra-se no Período de Moratorium. (Fernandes, 2024) Este período é caracterizado por um estado de exploração intensa, onde o indivíduo enfrenta uma crise de identidade e questiona-se sobre as suas escolhas ideológicas e ocupacionais. (Fernandes, 2024)

No caso da Maria, ela está claramente a viver essa crise, como é demonstrado pela sua incerteza em relação à profissão que deseja seguir: "não tinha a certeza de que queria exercer essa profissão, é uma decisão muito importante, precisa de refletir melhor". 

Este processo de reflexão e procura de alternativas, embora seja saudável e um passo necessário para a construção de uma identidade sólida, pode também gerar sentimentos de ansiedade e sofrimento, já que a Maria está a lutar com questões significativas sobre o seu futuro. (Fernandes, 2024)

Esta fase de incerteza levou-a a desistir do curso, mas não a estagnou, pois tomou a decisão de interromper os estudos por um ano para explorar outras possibilidades, tendo também optado por fazer um estágio e refletir sobre o que realmente gostaria de estudar, mostrando uma atitude ativa e uma tentativa de resolver a sua crise de identidade, sem deixar de procurar soluções para o seu futuro.(Fernandes, 2024)

Caso da Carolina

A Carolina (16 anos), sempre teve dificuldades académicas mas agora que passou para o 10º ano sente-se muito desmotivada. Recusa-se a ir à escola, pois acha que "não vale a pena" continuar a estudar, a escola é apenas uma perda de tempo. Os pais, desiludidos e preocupados, não a conseguem convencer a voltar a estudar. Depois de muitas discussões disseram-lhe que se não quisesse estudar, teria que trabalhar. Carolina recusa-se a trabalhar e passa o tempo no quarto, muito ativa nas redes sociais.

Resolução:

De acordo com James Marcia, a Carolina encontra-se na fase da Difusão de Identidade.(Fernandes, 2024) Este estágio caracteriza-se pela ausência de um compromisso claro com objetivos pessoais, profissionais, ideológicos ou ocupacionais. (Fernandes, 2024) A Carolina não parece ter feito uma reflexão profunda ou um período de moratorium como ocorreu com Maria. (Fernandes, 2024)

No entanto, ao contrário da Maria, que está a explorar ativamente outras possibilidades, a Carolina encontra-se estagnada. Ela não se envolve em atividades construtivas ou na procura de alternativas para o seu futuro, e dedica-se maioritariamente a passar o seu tempo nas redes sociais. (Fernandes, 2024) 

Esta falta de ação e de direcionamento é típica da Difusão de Identidade, onde a pessoa ainda não procurou ou não está disposta a procurar um compromisso mais firme com a sua identidade ou com as suas escolhas de vida. (Fernandes, 2024)

Caso da Daniela

A Daniela, com 18 anos, prepara a candidatura à universidade. Foi uma decisão muito pensada, fez orientação vocacional durante os anos de secundário com a psicóloga escolar. Durante a adolescência trabalhou no verão e teve também alguns empregos em regime de part-time, os quais conciliou com a escola. É uma jovem simpática, confiante e educada, muito acarinhada pelos pais, professores e pelos seus amigos.

Tenha em conta os casos acima expostos. Identifique em que fase da construção da identidade, se encontram cada uma das personagens.

Resolução: 

A Daniela encontra-se no estádio de obtenção de identidade, conforme a teoria de James Marcia, pois passou por um período de decisão bem fundamentada.(Fernandes, 2024) 

Deste modo, a tomada de decisão foi feita de forma cuidadosa e refletida, como se pode observar no facto de ter realizado a orientação vocacional durante o Ensino Secundário com o apoio da Psicóloga da Escola. Esta preparação e reflexão permitiram-lhe definir a sua candidatura à universidade com base em escolhas informadas. Além disso, a Daniela considerou uma série de experiências e informações ao tomar as suas decisões, tanto em relação à sua ocupação como aos seus objetivos ideológicos.

Outro fator relevante para o seu processo de obtenção de identidade foi o fato de ter tido a oportunidade de trabalhar no verão e em alguns empregos de part-time durante o período escolar. Essas experiências práticas permitiram-lhe amadurecer e enfrentar o conflito descrito por Erik Erikson, entre a Confusão de Identidade vs Identidade, o que lhe permitiu uma construção sólida da mesma, levando à emergência da virtude da fidelidade. (Fernandes, 2024) Esta virtude é essencial, pois permite ao jovem tomar decisões com confiança e ser fiel às mesmas, o que é crucial para o seu desenvolvimento pessoal e terá influência nas suas escolhas ao longo da vida.

Referências:

Fernandes, H. (2024). Psicologia do Ciclo Vital I [unidade curricular do curso de licenciatura em Enfermagem]; Setúbal, Portugal: Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal

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